segunda-feira, 11 de junho de 2012

Planejamento de Aula - Trovadorismo


PLANO DE AULA

Dados de identificação.

Local: Uniderp Anhaguera

Disciplina: Literatura Potuguesa

Turma: 3° semestre Alunos do curso de graduação em letras

CONTEÚDO

·                Trovadorismo

·                Composição de cantigas trovadorescas primitivas com composições da música popular Brasileira

TEMPO DE AULA

·                50 min

OBJETIVOS

·                Ampliar o conhecimento sobre os estilos de época.

·                Conhecer elementos estruturais e as características das cantigas do trovadorismo primitivas fazendo comparação com composições atuais da música popular Brasileira.

·                Desenvolver a capacidade de pesquisar, comparar, selecionar informações e  produzir     conhecimentos.

                    

PROCEDIMENTOS DE ENSINO

Apresentação dos alunos

Apresentação de slides com explicações sobre a diferença entre as cantigas líricas e satíricas, comparando as composições trovadorescas antigas e composições contêmporaneas da música populare brasileira.

AVALIAÇÃO

A avaliação será continua, observando os avanços e eventuais dificuldades, debate e pergunatas ao longo da apresentação. 
RECURSOS

·         caneta

·         Caderno para anotações

·         Musicas

·         Data show

·         Arquivo com as músicas relacionadas

 Cantiga de amigo: canção de Martin Codax  e de Caca moraes, ”fico assim sem você”

Cantiga de amor: canção de D.Dinis e de Seu Jorge, ”mina do condomínio”

Cantiga de mal dizer: cançaõ de Afonso Eanes Coton e de os Caçadores, ” Dona Gigi”

Cantiga de escárnio:  canção de Joan Garcia Guilhame e de Gabriel o Pensador, “ Fala sério”



COMPOSIÇÃO DE CANTIGAS TROVADORESCAS PRIMITIVAS COM COMPOSIÇÕES DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA


CANTIGA DE AMIGO

·         Amigo é uma mulher (embora os escritores fossem homens)

·          O tema principal é a lamentação da mulher pela falta do amado. 

  

Cantiga de Amigo – Martim Codax
Cantiga de Amigo Atual - Fico assim sem você
(Abdullah / Caca Moraes)
Ondas do mar de Vigo,
Acaso vistes meu amigo? Queira Deus que ele venha cedo!

Ondas do mar agitado
Acaso vistes meu amado?
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amigo
Aquele por quem suspiro?
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amado,
Por quem tenho grande cuidado (preocupado)?
Queira Deus que ele venha cedo!
Avião sem asa,
Fogueira sem brasa,
Sou eu assim, sem você
Futebol sem bola,
Piu-piu sem Frajola,
Sou eu assim, sem você...

Porque é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim...

Tô louco prá te ver chegar
Tô louco prá te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração...

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver,
Mas o relógio tá de mal comigo...

Por quê? Por quê?

Neném sem chupeta,
Romeu sem Julieta,
Sou eu assim, sem você
Carro sem estrada,
Queijo sem goiabada,
Sou eu assim, sem você...

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver,
Mas o relógio tá de mal comigo...

Por quê? Por quê?



CANTIGA DE MAL DIZER

  • Sátira direta.
  • Maledicência.
  • Uso de palavras obscenas ou de conteúdo erótico.
  • Citação nominal da pessoa satirizada.

(Afonso Eanes de Coton)
“Gigi” de Os Caçadores.

Marinha, o teu folgar
tenho eu por desacertado,
      e ando maravilhado

      de te não ver rebentar;

      pois tapo com esta minha
      boca, a tua boca, Marinha;

      e com este nariz meu,

      tapo eu, Marinha, o teu;
      com as mãos tapo as orelhas,
os olhos e as sobrancelhas,

      tapo-te ao primeiro sono;

      com a minha piça o teu cono;
      e como o não faz nenhum,

      com os colhões te tapo o cu.

      E não rebentas, Marinha?

Ih dasqui ih
“eu sou a dona gigi”
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"esse aqui é meu esposo"
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"esse aí é seu esposo?!?"
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"é sim..."
Se me vê agarrado com ela
Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Tá com pena leva ela pra casa
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
Se me vê agarrado com ela
Separa que é briga, tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Tá com pena leva ela pra casa
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caido e um caroço nas costas...
Ih gente! capina, despenca,
Cai fora, vai embora ,
Se não vai dançar,
Chamei 2 guerreiros,
Bispo macedo, com padre quevedo pra te exorcisar...
Oi, vaza!
Tcha tchritcha tchritcha tchum, tchritcha tchritcha
Fede mais que um urubu,
Canhão! vou falar bem curto e grosso contigo, hein...
Já falei pra vaza!
Coisa igual nunca se viu...
Oh vai pra puxa... tu é feia...




CANTIGA DE AMOR

  • Amor do trovador pela mulher amada.
  • Mulher idealizada.
  • Contemplação platônica.
  • Sofrimento por amor.
  • Vassalagem amorosa.
  • Amor cortês.

(D. Dinis )
“Seu Jorge” Mina do Condomínio
Quer’eu em maneira de proença!
      fazer agora um cantar d’amor
      e querrei muit’i loar lmia senhor
      a que prez nem fremosura nom fal,
      nem bondade; e mais vos direi ém:
      tanto a fez Deus comprida de bem
      que mais que todas las do mundo val.
      Ca mia senhor quizo Deus fazer tal,
      quando a faz, que a fez sabedord
      e todo bem e de mui gram valor,
      e com tod’est[o] é mui comunal
      ali u deve; er deu-lhi bom sém,
      e desi nom lhi fez pouco de bem
      quando nom quis lh’outra
      foss’igual
      Ca mia senhor nunca Deus pôs mal,
      mais pôs i prez e beldad’e loor
      e falar mui bem, e riir melhor
      que outra molher; desi é leal
      muit’, e por esto nom sei oj’eu quem
      possa compridamente no seu bem
      falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.
Tô namorando aquela mina
Mas não sei se ela me namora
Mina maneira do condomínio
Lá do bairro onde eu moro Seu cabelo me alucina
Sua boca me devora
Sua voz me ilumina
Seu olhar me apavora
Me perdi no seu sorriso
Nem preciso me encontrar
Não me mostre o paraíso
Que se eu for, não vou voltar

Pois eu vou
Eu vou

Eu digo "oi" ela nem nada
Passa na minha calçada
Dou bom dia ela nem liga
Se ela chega eu paro tudo
Se ela passa eu fico doido
Se vem vindo eu faço figa
Eu mando um beijo ela não pega
Pisco olho ela se nega
Faço pose ela não vê
Jogo charme ela ignora
Chego junto ela sai fora
Eu escrevo ela não lê

Minha mina
Minha amiga
Minha namorada
Minha gata
Minha sina
Do meu condomínio
Minha musa
Minha vida
Minha monalisa
Minha vênus
Minha deusa
Quero seu fascínio
(desde o começo)

Minha namorada
Do meu condomínio
Minha monalisa
Quero seu fascínio





CANTIGA DE ESCÁRNIO

  • Referências indiretas
  • Ironia
  • Não se revela o nome da pessoa satirizada

Joan Garcia de Guilhade

Fala Sério       Gabriel O Pensador

Ai, dona fea, fostes-vos queixar
      que vos nunca louv[o] em meu cantar;
      mais ora quero fazer um cantar
      em que vos loarei toda via;
      e vedes como vos quero loar:
      dona fea, velha e sandia!
      Dona fea, se Deus mi pardom,
      pois avedes [a]tam gram coraçom
      que vos eu loe, em esta razom
      vos quero ja loar toda via;
      e vedes qual sera a loaçom:
      dona fea, velha e sandia!
      Dona fea, nunca vos eu loei
      em meu trobar, pero muito trobei;
      mais ora ja um bom cantrar farei,
      em que vos loarei toda via;
      e direi-vos como vos loarei:
      dona fea, velha e sandia!
Fala sério, me fazendo de palhaço
Fazendo estardalhaço
De onde vem o dinheiro do mensalão?
Olha a nuvem de fumaça desviando a atenção
Tem culpa eu, seu delegado?
Tem culpa eu?
Tem culpa eu, seu deputado?
Tem culpa eu?
Tem culpa eu, seu senador?
Tem culpa eu?
Tem culpa eu, presidente?
Por favor!
Por que divulgar uma conversa sem valor?
Por quê?
Pra tentar calar a voz do pensador?
Por quê?
Pra tentar pegar uma capa de revista?
Por quê?
Pra dizer que a culpa é toda dos artistas?
Por quê?
Ah não, artista não. É maconheiro!
Sustenta o traficante que sustenta o mundo inteiro
Se eu fosse um maconheiro que comprasse um camarão,
Será que o meu dinheiro ia parar no mensalão?
Não sei, só sei que eu não preciso dizer nada
Se eu fumo, se eu bebo... tremenda palhaçada!
Falei sobre a maconha há mais de 6 anos atrás
Compra o disco, delegado, toca o Cachimbo da Paz
Ou então pode comprar o CD pirata
Tem sempre alí na esquina, pode ser mais vantajoso,
Mas cuidado pra não ser pego em flagrante
Posar de vagabundo sustentando criminoso.
Todos nós sustentamos criminosos,
Eu confesso que sustento,
Sustento, mas não gosto.
Mas não é nada disso que você tá pensando
Eu tô falando dos bandidos que recebem meus impostos.
Alimentam, se alimentam da miséria,
Mas quem vai na favela é o craque ou o artista
A foto do corrupto já deu muita matéria
A foto do famoso vende muito mais revista.
É...político no crime já não é mais novidade
Prefiro uma fofoca diferente
Mesmo se não for crime de verdade,
Mas é celebridade. Diz que é crime pra ficar mais atraente,
Mas quem é que alimenta a miséria que oprime
E empurra o favelado pro lado do crime?
Alguns vão ser cantores, alguns vão jogar bola,
Mas muitos sem escola acabam na pistola.
Morrendo, matando, o mundo se acabando
E tanta gente de braços cruzados.
Parece que ta tudo combinado
O que eu sei vocês já sabem
Espero que eu tenha colaborado.



REFERÊNCIAS



http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/trovadorismo/trovadorismo.php acesso em 16 Maio 2012

http://letras.terra.com.br/seu-jorge/1089752/ acesso em 16 Maio 2012

Trovadorismo e o Panorama Histórico


Trovadorismo

             O trovadorismo foi a primeira manifestação da literatura da língua portuguesa. Surgiu no século XII, em plena idade média, período em que Portugal estava no processo de formação nacional. O período mais fértil do trovadorismo ocorreu em meados do século XIII com a canção da Ribeirinha, de Paulo Soares de Taveirós (1189 a 1418) e sua decadência ocorreu a partir de meados do século XIV. E o seu Término ocorreu com a  nomeação de Fernão Lopes como cronista- mor da Torre do Tombo (1434).

             A poesia trovadoresca tem íntima ligação com a música, pois era composta para ser harmoniosa ou cantada com acompanhamento instrumental como:

- o alaúde - a flauta - e a viola.

                       Panorama histórico

·         Cristianismo –

·         Cruzado rumo ao oriente –

·         Luta contra os mouros –

·         Teocentrismo: poder espiritual e cultural na mão da igreja católica

·         Feudalismo -

·         Consolidação de Portugal



Gênero lírico

             Preocupa-se principalmente com o mundo interior do eu lírico, descrevendo os sentimentos amorosos desse. As cantigas líricas tanto de amor como de amigo, possuíam uma estrutura mais formal, com o uso de rimas e refrões.
·         - cantigas de amor
·         - cantigas de amigo
DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE AS CANTIGAS LÍRICAS




CANTIGAS DE AMOR
CANTIGAN DE AMIGO
ORIGEM
Provençal
Península Ibérica
AUTORIA
Masculina
Masculina
SENTIMENTO
Masculino
Feminino
AMBIENTE
Palaciano
Rural

O homem presta vassalagem amorosa
A mulher sofre pelo amigo (namorado, amante) ausente.

A mulher é um ser idealizado, superior
A mulher e um ser mais real e concreto

Predominam temas como o saudosismo, o desespero pela ausência da dona, a timidez amorosa, a revolta contra o poder fatal da coita de amor, etc
Predominam os temas da descoberta do amor, da tristeza pela ausência do ser amado, da espera, da decepção pelo abandono, da alegria pela realização amorosa, etc.


Características das cantigas

                Cantigas de amor

·         - Eu lírico masculino

·         - sofrimento amoroso do eu lírico perante uma mulher idealizada e distante;

·         - contemplação platônica;

·         - uso de “meu senhor”;

·         - sofrimento por amor (coita);

·         - amor cortês (vassalagem amorosa);

·         - ambiente palaciano;

·         - estribilho ou refrão;

·         - origem provençal.


Cantigas de amigo

·         - eu lírico feminino

·         - o trovador põe-se no lugar da mulher que sofre pelo amado;

·         - uso do termo “amigo”, que significa namorado, amante, marido.

·         - mulher concreta, real. Amor físico

·         - diálogos: conversa com a natureza, mãe, amiga;

·         - predomínio da musicalidade;

·         - ambiente rural: mulher camponesa;

·         - influência da tradição oral ibérica;

·         - paralelismo e refrão;

·         - origem portuguesa;

 Gênero satírico

             O objetivo é criticar alguém, ridicularizando esta pessoa de forma sutil ou grosseira. As cantigas satíricas especialmente as de maldizer, possuíam uma forma mais livre, em que se podiam usar expressões fortes até palavrões.

             Cantigas de escárnio

·       - Referencias indiretas;

·       - ironia;

·       - ambiguidade (vocabulário de duplo sentido);

·       - não se revela o nome da pessoa satirizada;


Cantigas de maldizer


·         - sátira direta;

·         - maledicência;

·         - uso de palavras obscenas ou de conteúdo erótico;

·         - citação nominal da pessoa satirizada;

 A Lírica Trovadoresca na Música Popular Brasileira


             A lírica trovadoresca medieval, exemplificada nas “cantigas de amor” e “de amigo”, nas “cantigas de escárnio” e “de maldizer”, permanece nas diversas formas e estilos da poesia e da música brasileiras. Vinculada à tradição oral, essa expressão artística foi disseminada entre povos de tempos e territórios diversos através dos jograis, homens do povo, cantadores andarilhos que, nas suas peregrinações, romarias e procissões, entoavam ao som do alaúde, da flauta e da viola as composições de autoria própria ou dos trovadores e menestréis. Estes últimos eram músicos profissionais conceituados da corte, enquanto os primeiros eram compositores de origem nobre.
             No percurso de tempos e geografias, as cantigas líricas foram sendo modificadas. Porém, foram preservados os aspectos pertinentes a sua origem grega: uma poesia composta para ser cantada ao som da lira, em que o texto poético mantém a intersecção com o texto musical, uma regularidade métrica e rítmica, nas construções estróficas em sextilhas, em décimas, e nos versos emparelhados.

             No período medieval, a transmissão cultural se dava, quase sempre, por meio da oralidade, através dos jograis, recitadores e cantadores de origem comum que, diferente dos trovadores, nobres que compunham por prazer, andavam pelas aldeias, nas romarias e cortejos, fazendo demonstrações de seu repertório poético e musical, ou mesmo na lida tangendo animais, ou realizando negócios (SARAIVA & LOPES, 1995).

             No Brasil, a herança trovadoresca se faz presente da entrada do povo português nas terras de “Caramuru” ao projeto nacionalizante do Modernismo. Na poesia catequética do Padre José de Anchieta, apenas para ilustrar, as técnicas orais de repetição mnemônicas percorrem as quadras de versos curtos e musicados, em frequente louvação à “senhora toda poderosa”, representada pela mãe de Jesus Cristo. 

              Objetivamos demonstrar a presença do Trovadorismo na música popular brasileira, destacando os traços da poesia medieval nas letras de três músicas contemporâneas, através da interpretação de canções que resgatam o sentido das cantigas de amigo e cantigas de amor, nos seus aspectos formais e temáticos.

              Para tanto, lançamos mão de leituras sobre as canções.
·         “Sozinho”, de Peninha –

·         “Queixa” de Caetano Veloso -

·         “Incelença pro amor ritirante”, de Elomar Figueira
         

 Sozinho”, de Peninha                                        «Ondas do mar de Vigo»  (Martim Codax)

Cantiga de amigo – dias atuais

Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
To me sentindo muito sozinho!
Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém
Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha? (...)
Cantiga de amigo trovadoresca

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
E ai Deus, se verra cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
E ai Deus, se verra cedo
!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ai Deus, se verra cedo
!
Se vistes meu amado,
por que ei gran coitado?
E ai Deus, se verra cedo
!


             “Queixa” de Caetano Velo                                              “Dom Diniz”


Cantiga de amor – dias atuais

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não o devia ter despertado
Ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho certeza
Princesa
Surpresa
Você me arrasou
Nem sente que me envenenou
Senhora e agora
Me diga aonde eu vou
Senhora
Serpente
Princesa (...)

Cantiga de amor – trovadoresca
O que vos nunca cuidei a dizer
Com gram coita, senhor, vo-lo direi,
Porque me vejo já por vos morrer.
Cá sabedes que nunca vos falei
De como me matava voss’ amor
Ca sabedes bem que d’outra senhor
Que eu nom havia pavor nem ei
E todo aquesto me fez fazer
E mui gram medo que eu de vós ei
E desi por vós dar a entender
Que por outra morria de que ei
Bem sabedes, mui pequeno pavor
E des oi mais, fremosa mia senhor. (...)

      
“Incelença pro amor ritirante,                                   (de Elomar Figueira)                                                                                                                   
“Despedida do morto”,
Vem amiga visitá
A terra, o lugá
Que você abandonô
Inda ouço murmurá
Nunca vou te deixá
Por Deus nosso Sinhô
Pena cumpanhêra agora
Que você foi embora
A vida fulorô
Ouço em toda noite iscura
Como eu a sua procura
Um grilo a cantá
(...)

              Esta última trata-se da junção de tipos diferentes de cantigas e se distancia das duas primeiras, não somente pela mescla de tipologias, mas também pela ambientação no universo do sertanejo e pela maior fidelidade ao registro oral.   

             A música “Incelença pro amor ritirante”, de Elomar Figueira, é construída a partir da pesquisa sobre as origens do brasileiro e vincula-se mais ao universo do sertanejo, à terra e à tradição oral. Enquanto na canção “Sozinho”, de Peninha, as marcas de oralidade se situam mais no nível da estrutura do verso, nas repetições e anáforas, na composição de Elomar, essas marcas se situam também no nível fonético. O eu-lírico, nessa cantiga, é o violeiro que canta sua mágoa em uma linguagem quase dialetal:

A canção, “Queixa”, de Caetano Veloso, apresenta componentes formais e temáticos que a inserem na categoria de cantiga de amor. Composta em quadras e redondilhas entrecruzadas, arrematadas por um refrão reforçador do motivo da cantiga: a “coita” do eu-poético pelo amor não merecido, causa do um “penar” já cantado por outros tantos trovadores à moda de D. Diniz: “Tam grave dia que vos conhoci,/ por quanto mal me vem por vós, senhor!”

             Na música “Sozinho”, de Peninha, os elementos da cantiga de amigo, são incorporados no modo como o eu-lírico se dirige à pessoa amada distante, embora aqui os papéis estejam inversos: o eu-poético que se ressente da solidão não é mulher, e sim o homem. A voz masculina já não se manifesta cheia de cerimônias como na cantiga de amor. E a impossibilidade de realização amorosa se dá pela ausência da musa e não por proibições de classe ou pela condição adulterina do amor imposta pelo sacramento matrimonial.


Estilos atuais de cantigas de mal dizer      (Caçadores – dona Gigi)

                                                                                               
Oi eu sou a gigi, esse é meu marido ...ai sai fora!

Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caido e um caroço nas costas...
Ih gente! capina, despenca,
Cai fora, vai embora ,
Se não vai dançar,
Chamei 2 guerreiros,
Bispo macedo, com padre quevedo pra te exorcisar...
Oi, vaza!



Cantigas de maldizer                     (Afonso Eanes de coton)

Maria mateu, daqui vou desertar.
De cona não achar o mal que vem.
Aquela que a tem não ma quer dar
E alguém que ma daria não a tem.
Maria mateu, Maria mateu,
Tão desejosas sois de cona como eu!
Quantas conas foi Deus desperdiçar
Quando aqui abundou quem as não quer!
E a outros , fe-las mui desejar:





Cantiga de escárnio – atuais                      (Graça graúna)

Não sei o que mais fazer
já procurei mil saídas
fui até ao pai dos burros
e lá encontrei a dica:
...se a pessoa é um xarope
ou besta humana que assusta
tem mais que tomar o chá
de semancol pra ter cura  (...)

Cantiga de escárnio - trovadoresca                                            (D. Joan Garcia de guilharde)


Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louve'en em meu trobar;
mas ora quero fazer um cantar
em que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!...